primeiros passos

Mirante do Pati

Conta-se que os primeiros habitantes do Vale do Pati vieram da região de Macaúbas e do Vale do Capão. Era o ano de 1899 e uma grande fome se alastrou por toda a região, obrigando os sertanejos a procuraram terras onde alimentos não fossem tão escassos. Vagaram pelos ermos da Chapada até desembocarem em um vale onde havia fartura de caça e vegetais comestíveis. Valendo-se da abundância de pacas, tatus, macacos, mel e palmito, que havia pelo oásis encravado entre montanhas, os retirantes se fixaram. Na certeza de terem encontrado um local que os salvavam da fome, os matutos plantaram mandioca e desenvolveram a criação de animais. Passaram-se 30 anos e, com a crise de 1929, que alimentou a fome pelos rincões mais pobres do planeta, novos habitantes vieram para o Vale do Pati, então já com fama de ser local onde alimentos não faltavam. As habitações humanas multiplicaram-se e, de acordo com política oficial da agricultura monocultora, o verde dos cafezais substituiu a milenar floresta. A região tornou-se importante economicamente e recebeu um posto avançado da prefeitura de Andaraí. A “prefeitura”, como ficou conhecida o entreposto, era a representação do poder público no Vale, além de servir de armazém de gêneros, posto dos correios e centro de reuniões. A febre do café acabou na segunda metade da década de 50 do século passado. Com a mudança da política do governo para aquele produto, todos os cafezais foram derrubados e a floresta pouco a pouco foi ressurgindo. Atualmente as poucas famílias que ainda moram no Vale sobrevivem da agricultura familiar e do turismo ecológico.

Foi com este pequeno triller da aventura humana que, ainda na localidade de Guiné, na manhã fria de 15 de outubro, colocamos mochilas às costas e começamos a caminhada em direção ao Vale do Pati. De início encaramos a Subida do Beco. Uma trilha íngreme, calçada por escravos, da época dos coronéis que, dizem, costumavam manter a chave de um cadeado que trancava a passagem. Os viajantes que precisavam usar a Subida do Beco tinham que vir pedir a benção do mandatário de plantão para destravar a porteira. Voltando à trilha, à nossa direita, o paredão da montanha que tentávamos vencer, à esquerda o precipício, sempre nos lembrando que aquele lugar não perdoava passos falsos nem cambaleios. Os pouco afeitos às caminhadas em lugares altos logo sentiram os efeitos da escassez de oxigênio: tonturas e um leve enjôo. Depois de quase uma hora de subida, vencemos a montanha. Pausa para tomada de fôlego e água. A partir daquele ponto seria uma longa descida até o Vale. De fato, depois de mais de uma hora, chegamos ao Mirante do Vale do Pati, onde podíamos avistar um bom pedaço da Chapada Diamantina. Abaixo, todo o Vale. A descida do paredão foi a primeira grande prova às nossas aspirações de trilheiros. Movimentos cuidadosamente estudados. Degraus de pedras, esculpidos pelas águas das enxurradas e raízes que sobressaíam dos barrancos, deram o suporte necessário para que não escorregássemos e descêssemos paredão abaixo, sem freio. Por fim alcançamos o sopé da rampa. Olhamos para cima, com um misto de incredulidade e espanto ao vermos a magnitude do paredão por onde havíamos descido. Abrigados pelas copas das árvores que verdejam pelo vale, fizemos mais meia hora de caminhada e chegamos à primeira parada.

na igrejinha, alívio...

Na Igrejinha

Dispostas em forma de triângulo, três casas e uma pequena capela, feitas de pau a pique,  rebocadas e caiadas. Como todas as localidades ao longo da trilha do Vale do Pati, a Igrejinha serve de base de apoio onde o viajante pode encontrar alimentos, banheiros – o conceito de chuveiro quente deve ficar fora da mochila quando se sai pelos caminhos do montanhismo -, lugar para camping, cozinha, quartos, colchões e uma pequena venda onde se pode tomar uma latinha de cerveja ou refrigerante, “esfriado em água de pote”. A hospedagem completa sai por 50 Reais a diária, o aluguel de colchão é 19 reais e o isolante térmico (uma espécie de borracha, usada por campistas como substituto do colchonete) custa 10,00. Por uma latinha de cerveja o viajante paga R$ 3,50 e a de refrigerante 3,00; o custo diferenciado se explica pela dificuldade de trazer mercadorias da cidade para o Vale em lombo de animais. Contrastando com a rusticidade do lugar, duas placas de energia solar – produto de um projeto do Governo Federal – fornecem energia elétrica para as lâmpadas fluorescentes e lembram que é possível uma simbiose entre o tradicional e o moderno.

a equipe entrevista João Calixto

– Moro aqui desde que nasci. Assim também é com meu pai (Sr. Gasparino), que está com mais de 80 anos. Dos meus irmãos sou o único que ficou, os outros foram pra cidade, em busca de melhores condições. Explica João Calixto (41), morador da Igrejinha e que administra a pequena estalagem.

as placas de geração de energia solar salvaram a exibição na Igrejinha

Todo empreendimento se constitui de planejamento, providências e imprevistos. No nosso caso houve planejamento de, para o funcionamento dos equipamentos de projeção, levar um pequeno gerador de energia elétrica. A equipe de produção providenciou o gerador e o combustível. Mal de toda empreitada humana, o imprevisto nos assaltou logo no primeiro dia. A despeito dos testes, o gerador funcionou por alguns minutos e silenciou-se. Tentou-se de tudo, mesmo sem ferramentas. Nada fez a engenhoca voltar a roncar. Em cima da hora e distante de qualquer assistência técnica, o pessoal  encarregado da projeção resolveu tentar utilizar as baterias que armazenavam eletricidade gerada pelas placas solares. Esbarrou-se na pouca carga dos acumuladores e, encontrando um meio termo, decidiu-se pela exibição de apenas um terço da programação: o documentário “Pati, o que vale esse povo?” e do programa “Janela”. Ficou de fora o longa metragem. Afora o contratempo acima descrito, a exibição ocorreu normalmente. Alguns moradores do Vale vieram ver na tela personagens conhecidos. Também estavam presentes trilheiros que, por força da ocasião, encontravam-se acampados naquela estalagem.

A noite seguiu tranqüila e o dia chegou com um manto de névoa, com as nuvens domando momentaneamente os paredões. Alguns levantaram mais cedo e foram dando as primeiras providências do dia. Foi o caso do casal que desarmou a barraca, pagou a conta e deu prosseguimento na jornada. No singelo refeitório a equipe tomou o café por volta das oito da manhã.

Texto: Alberto Marlon

Fotos: Bárbara Garden

Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s